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Milagre criminoso: um homem incompleto acocora-se para um espelho.
A infalivel mácula no acto da contracepção.
A outra, antes dela mesma, ou a mesma antes dela outra.
Infalivelmente nossa, mas com pó a ter pó.
A fronteira muda de paisagem por correspondência.
O cordeiro delator enforca-se num discreto urinol duchampiano e entra na fecundidade divina.
O céu faz strip-tease e depois veste-se de papel de parede.
Num ringue de boxe o ornitorrinco faz uma aparição patética e vence por K.O. no segundo round.
A amaricana é um cão sem seio.
II
A mais terna unção extrema a juventude e a nação.
O chapéu-de-chuva conduz os crentes à cabana e ao cabaz do pai natal.
Bébé com pombal nas tripas abre as portas automáticas da boca do inferno.
Uma encantadora paisagem sodomiza um insecto.
O coleccionador de inconscientes deita fogo à colecção.
A Graça limpa com um espanador os jogos de linguagem de Wittegenstein.
Com caudas de silêncio se aumentam as bochechas das orquídeas da ironia.
Os jogos crepusculares decapitam os diurnos e os nocturnos.
A raínha do Sabá chicoteia anacoretas canibais.
A cabeça procura um harem de corpos.
Os jogos diurnos e nocturnos ressuscitam no paraíso errado.
Anjos caninos fazem caricaturas secretas de profetas.
Musa colocada como uma cabeleira na poetisa postiça é confundida com uma freira na hortaliça.
Prometeorito.
A cabeça decapita outras 100 mulheres e confessa-o a uma Medusa manca.
Será a casualidade uma macaco catatónico?
A perturbação irmana as 100 decapitadas e leva-as a uma salada russa no exílio.
A recompensa desorbita-se.
III
A luz faz-se luz sem regatear um autor e sem insultar as trevas.
Obscuridade electivas fermentam em faustos.
Esturgido de fantasmas com guacamole e pêras.
Palestrina lima o látego na latrina.
O notário segura o terramoto num copo de àgua.
O grão-mestre dos caracois faz outro horóscopo à rata.
A terceira rata toca violino no corpo de uma adultera lendária.
A jovem adultera deixa fugir o estrangeiro estrangulado.
A macaca macabra é acusada de falsificar bruxarias.
Um grunhido de alaúde ameaça matar a sogra da cabeça.
A eterna consoada não quer ser consolada.
A ginastica para pôr defuntos em forma é revogada por quem odeia cegos.
Os farsantes do grande inverno examinam o estomago à alegoria das cavernas.
Um comboio adormecido coxeia na Alta Obscuridade.
Bucha, desamiga!
Recreação naval por piratas ginecológicos.
Fadistas surdos à caça num pantanal de turistas.
La Dame aux Escargots queixa-se ao rabi de gota e sai de gatas com uma injecção de Kafka.
Ela abre uma conserva de seios liquídos e depois liquída as sete anãs.
La Dame aux Escargots enerva-se com os seus leitores e escarra-os.
O rei dos caracois torna-se devoto da limpa nuca da Dama e do seu muco.
A Esfinge celebra as suas bodas com o Minotauro.
Jesus, desiludido com o Pai, entra para um convento de carmelitas descalças.
O caracol acaba por devorar uma vitela à jardineira e uma carta das finanças.
Sempre acompanhada à guitarra, a minha cunhada, dá à luz 100 meninas malvadas.
A formusura é lunar, por isso não escapa ao negócio.
Corpos vulcânicos apascentam uma ironia que ameaça a posteridade.
IV
Sorrisos de contrabando fazem os sexos quase idênticos.
Vénus torna os bustos ainda mais robustos. Miam!
Descarga púbica: todas as escolas dão no mesmo. Porquê?
E LaDame aux Escargots com a sua carne desfez o Verbo.
O seu sorriso é o sabre da elegância. A sua elegância é o sebo dos sorrisos.
A sua ebriedade afoga no fogo as armas que mamam na vida da puta.
As ruinas olham as cascas das cidades descascadas e desmaiam.
Num tango descontinuo, heis a minha insaciável sogra, a cabeça das 100 mulheres!
As hienas rondam choronas o túmulo alado do profeta sangrento.
O seu sorriso escondeu-se numa echarpe branca e atirou-se a um pastel de nata.
Há um desencontro ao fundo túnel que faz sensacionalismos.
Montanhas mascaradas sobem as escadas.
V
Mais leviana que um governante, cá está a minha sogra, a cabeça das 100 mulheres!
As amarguras ondeiam ao lado.
A simplicidade faz falsas e açucaradas declarações ao inspector.
Uma pulsão telúrica humilha-se perante as imagens.
Titanicas engomadeiras passam o mundo a ferro.
Os anões irmãos das anãs sabotam os sonhos dos titãs.
Estradas cegas ladeiam visões preciosistas.
Vulcano vomita o assado de carneiro nas cuecas da instrutora.
É demasiado profundo para se elevar, e demasiado leve para se suicidar.
Vulcanica e asseada, a minha sogra ogre, a cabeça das 100 mulheres.
Pastiche, sublimação, desconversa.
Coplas de cópulas tornam acutilantes os prados.
A depilação das delapidadoras transforma a Aurora meticulosa.
Os assassinos das tranquilidades passadas fodem as fadas.
Futuros fatigados têm remédios diletantes.
Capitulantes delitos de cunhadas decapitantes.
VI
Pescaria aos milagres quebrados.
Mais traiçoeira que o mar, a minha sogra da lingua, a cabeça das 100 mulheres!
Heis as parecenças, como uma terrivel sede de crenças.
O amor anda à pesca de gritaria milagrosa.
O trono sofre de sonambulismo, jubila-se com a noite e desgraça-se pois.
A serenidade é mais inclemente do que um maremoto.
Os gestos afogados dos advogados e seus ajudantes lavagantes.
Inquina tudo e o mais.
Um jubilante mar de jubas.
VII
A noite jejua, arranca os olhos a Atlas e oferece-os às Gorgonas.
Torturada pelo silêncio, a porta confessa-se e culpa-se.
Um Espirito sem Espirito faz-se Carne ao passar por uma picadora.
Os selos do correio vão ao médico apavorados.
Há corpos que são cortinas ambulantes.
A cabeça das 100 mulheres aceita pagamentos em sorrisos avulsos.
O Caracol, temendo a ebriedade, recupera a sua antiga ambiguidade no barbeiro.
O bosque cego segue os òvulos ovais da substituta da amante.
A menstruação dos fantasmas surpreende um gang de jornalistas nús.
Uma chuva de vestidos abate-se sobre as cadelas da moda.
O polvo luminoso masturba piedosas almofadas com mentiras verdes.
O Terror afasta-se como um mexicano ensonado.
Descobre-se uma clavicula num berço e esta torna-se um pastel gigante.
VIII
A morte da vaidade põe fantasmas nos cabides.
Todas as diferenças se partem antes de partirem.
Posa na pose apátrida de quem ama à mariposa.
Finalmente um capitulo que se dá de presente a quem desagrada.
Não foi difícil o leitor ficar irreconhecível.
Uma vacilação muito lavada invalida as penas de quem não nos quer ler.
Um pastor no seu gabinete de trajos folclóricos faz bem à saúdinha do rebanho.
Um buda que é policia, católico e macaquinho de imitação faz implicações financeiras.
A divina comédia num vaudeville com pretensões cientificas é dada à estampa.
Rosa Davida lê o Fantomas em tradução cubista de Gertrude Stein.
O Agente Múltiplo surpreende-se em puro flagrante e assassina-se.
O excremento verde ressuscita outra vez Lázaro e seus dromedários voadores.
Apesar de só possuírem uma mesma cabeça as 100 mulheres teimam em reproduzir-se inutilmente criando povoados fantasmáticos com pretensões surrealistas. Mas apesar da humidade latente, e da humanidade gelada, uma sogra será sempre uma sogra.
IX
Damos como desgraça adquirida o satanismo de Deus, mas faltam-nos provas, mesmo em caso contrário.
Descontinuação contaminada.
O ínicio do avesso.
A cabeça das 100 mulheres tem uma erecção ocular e repete-se.
O mesmo dito da mesma maneira emburrece muita gente.
A mesma maneira dizendo o mesmo aborrece os curiosos e os leprosos.
A cabeça das 100 mulheres e o caracol civilizam selváticamente o que resta da sua cumplicidade e dão esperanças ainda mais vãs à humanidade.
Alguém masca a luz e as trevas como uma aparatosa pastilha-elástica.
Resguarda-te de segredos alheios: diz o cão de guarda do guarda-roupas.
Segrega-te nas guardas: diz o guarda-livros da guarda republicana a cavalo.
O guarda agrada-se.
Todas as caminhas vão dar à rima. Todas as carrinhas vão dar à prima.
Rima torsa em Tarso. Prima rôxa tem tazos.
Lisboa: limbo antes do limbo.
Quem é a cabeça das 100 mulheres? Quando o sei deixo de o saber. Quando o ignoro é uma obcessiva evidência. Explica-te e dir-te-hei como te obscuras.
O caracol, repugnante amante das nossas incertezas, é arrojado ao insinuar que somos demasiado íntimos de uma tal verdade.
(Continua muito antes do começo)